O Agente Secreto: Filme bom, em linguagem cinematográfica mas não o melhor filme nacional !!
Havia na tela um domínio inegável, uma orquestração de luzes e sombras, de planos e texturas que atestava a habilidade dos que maneiram a arte cinematográfica, principalmente a de Kleber Mendonça Filho. Os enquadramentos de câmera, o jogo de tons e a fluidez dos efeitos digitais compunham uma tapeçaria visual de boa qualidade, digna do grande cinema, lembrando em seu arrojo e estilo a pulsação de certos mestres estrangeiros, como Quentin Tarantino.
Contudo, sob o verniz da técnica, a alma da narrativa parecia esvair-se. A personagem Fátima, prometida no início, logo se tornava uma sombra, um corpo frio; sua presença, reduzida a fragmentos fugazes de memória em sequências de flashback, negava-lhe a chance de existir plenamente.
O protagonista, Armando, carregado por Wagner Moura, deslizava pela trama em uma neutralidade desconcertante. Sua saga, a fuga do país urdida sob a ameaça iminente, culminava não em um ato de desespero ou resistência, mas na fria constatação de um corpo em um noticiário, uma morte sem palco, o desfecho negado em cena. Sentia-se o peso de um personagem cujo desenvolvimento foi abortado, deixando a performance do ator em um limbo de pouca reação diante do próprio destino.
O longa, em sua essência, tropeçava na estrutura que deveria sustentá-lo, escorregando na construção de seus pilares humanos. A saga de Armando pedia mais, clamava por um passado que explicasse seu presente, por um propósito que fosse além da névoa de um luto inconcluso ou de uma paranoia que o consumia. Não bastava a dor pela esposa, faltava saber quem, de fato, era ele, qual era sua missão e por quem lutava. A estreia luminosa do potiguar Kaiony Venancio, embora notável, não preenchia o vazio deixado pela fragilidade do arcabouço dramático.
Visões técnicas e narrativas do filme.
O destaque para "Efeitos, tons, enquadramentos de câmeras, entregam uma boa qualidade de cinema" e a comparação "Filmes do Kleber Mendonça é quase um Tarantino no Brasil" validam a assinatura visual e sonora do diretor.
Qualidade Técnica: O cinema de Kleber Mendonça Filho é, de fato, conhecido pela imersão sensorial. A direção de arte, a fotografia (no caso, de Evgenia Alexandrova), e o desenho de som em seus filmes constroem uma atmosfera densa e detalhada (o Recife de 1977, os ruídos, as texturas, as cores). Seu trabalho como cineasta comprova isso desde seu primeiro longa.
Mais desenvolvimento de personagens e destaque para atuações:
Notei a pouca presença de Fátima (Alice Carvalho), vista principalmente em flashbacks ou já morta. Isso reflete uma escolha narrativa que prioriza o impacto temático e a trajetória do protagonista em luto e paranoia, em detrimento do desenvolvimento linear dos personagens secundários. A vida dela é um segredo/trauma que o protagonista carrega, não uma saga a ser explorada.
Possível Intenção do Diretor: A falta de "reação" de Armando à sua própria ameaça e morte (vista em um noticiário) pode ser uma escolha deliberada para refletir um estado de paranoia, apatia ou dissociação frente à violência política e a necessidade de se manter discreto ("agente secreto") em um período de ditadura (o filme se passa em 1977), apesar de quê vemos essa referencia muito pouca, mas quando os personagens que estão refugiados na casa de Dona Sebastiana (Tânia Maria). O personagem vive uma ameaça existencial que, para se concretizar em um thriller, exige essa contenção.
O Estilo Neo-Noir: "O Agente Secreto" é classificado como um neo-noir e thriller político. Nesses gêneros, a ambiguidade do protagonista (o Armando/Marcelo), que precisa esconder seu passado e intenções, é muitas vezes um recurso central. O "segredo" dele é, em parte, o mistério da narrativa.
O destaque para Kaiony Venancio é um reconhecimento importante para o novo talento potiguar em sua primeira atuação em longa-metragem. É um ponto que valoriza a produção nordestina do filme e a introdução de novos rostos ao cinema nacional, seu personagem, um assassino de aluguel, teve grande destaque no plot que inclusive teve mais relevância na narrativa do que a personagem Fátima.
Oscar 2026
Conclusão:
O Filme "O Agente Secreto" é tecnicamente um "Filme bom", que cumpre o esperado em termos visuais e de direção. No entanto, sua principal falha reside na estrutura narrativa e na construção de personagens centrais, como Armando e Fátima. A falta de profundidade e reação nas motivações e no arco do protagonista principal (Wagner Moura) ainda é um ponto fraco, impedindo que a história atinja seu potencial máximo.

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